Segunda-feira, 22 de maio de 2023 - Por Eliane Fonseca Daré
Quando os mais vulneráveis são atingidos
Falta de políticas públicas contribui para potencial desastre causado pela seca no semiárido baiano
Imagem: Quando os mais vulneráveis são atingidos

Efeitos da seca no reservatório de Sobradinho, no semiárido baiano, em 2020: a urbanização, o avanço da agropecuária e o cultivo de frutos para exportação provocam impactos na região

Tese defendida no Instituto de Geociências (IG) da {UNICAMP} por Rafael Vinicius de São José teve como principal objetivo desenvolver uma metodologia de prevenção ao risco de seca no semiárido do Estado da Bahia, utilizando como estudo de caso a mesorregião do Vale São-Franciscano, ocupada por grupos que apresentam diferentes níveis de vulnerabilidade social. Em áreas cuja população é muito vulnerável, a seca pode gerar profundos impactos sociais.
"O que constatamos foi que, para cada cenário de seca — fraca, moderada, severa, extrema ou excepcional —, a crise, caso aconteça a materialização do risco, não atingirá todos da mesma forma e com a mesma intensidade. A população mais vulnerável será a mais afetada por não ter acesso suficiente à água", explica São José.
O estudo, orientado pelo docente do IG Roberto Greco e coorientado pela pesquisadora Priscila Pereira Coltri, do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (Cepagri), sugere que a região apresenta áreas potenciais para a ocorrência de grandes desastres relacionados à seca. A mesorregião do Vale São-Franciscano está situada na região semiárida da Bahia e vem sendo bastante impactada pelo avanço da agropecuária, do cultivo de frutos para exportação e do desenvolvimento urbano. Para verificar tendências de umidade e de temperatura (mínima e máxima) da área do estudo, o pesquisador analisou os valores mensais de precipitação pluviométrica e de temperatura do ar relativos ao período de 1961 a 2019. O autor da tese constatou a propensão ao aumento da temperatura do ar e à redução da precipitação pluviométrica, o que pode ter relação com as mudanças ambientais e com a própria dinâmica climática da região.
"A seca, quando ocorre em locais com baixa infraestrutura, com uma população em diferentes níveis de vulnerabilidade social, pode comprometer a segurança alimentar, intensificar a pobreza, gerar fome e epidemias", expõe.
Ao integrar dados espaciais referentes às possíveis ocorrências de seca, nos diferentes graus de intensidade e com os distintos níveis de vulnerabilidade dos agricultores do semiárido baiano, foi possível gerar um mapa com a distribuição espacial do risco climático da seca. O pesquisador analisou 278 municípios e identificou que, se houver seca fraca, moderada ou severa, a grande maioria desses municípios está sob risco muito alto, com potencial de o fenômeno ganhar proporção de desastre. Se houver seca extrema ou excepcional, o risco eleva-se a crítico.
"Esse resultado sugere que, se tais riscos se materializarem, podem desencadear desastres de diferentes intensidades e resultar em turbulência social", previne Rafael.
Para evitar esse tipo de desastre, é necessário elaborar políticas públicas que reduzam a vulnerabilidade social da população e que aumentem a capacidade de resposta.
"Quando falamos de desastre, não podemos nos centrar apenas no campo das ciências naturais. Devemos levar em consideração as ciências sociais. O desastre é o encontro do fenômeno natural com uma população socialmente vulnerável", aponta o pesquisador.
Greco destaca que a tese apresenta uma metodologia com desdobramentos conceituais e de grandes possibilidades de aplicação.
"Também permite entender o quão alarmante é a situação do risco de seca no semiárido e o quão urgente é criar políticas voltadas para a convivência com a seca", acrescenta.
São José lembra que esse é um fenômeno natural que faz parte da história evolutiva do planeta.
"Essa é uma anomalia temporária que pode ocorrer em qualquer região do globo, tanto em áreas caracterizadas por baixas precipitações como em áreas que apresentam totais elevados de chuva", afirma.
Imagem: Priscila Pereira Coltri (coorientadora), Rafael Vinicius de São José (autor da tese) e Roberto Greco (orientador): análise de dados de 278 municípios Priscila Pereira Coltri (coorientadora), Rafael Vinicius de São José (autor da tese) e Roberto Greco (orientador): análise de dados de 278 municípios
Ação antrópica Coltri lembra que a alteração do clima global está relacionada com a ação antrópica e que mudanças significativas têm sido observadas, como é o caso dos níveis de gases de efeito estufa, os mais altos já registrados. Argumenta, ainda, que houve um desequilíbrio a partir da Revolução Industrial, com a emissão de gás carbônico, metano e óxido nitroso, todos provenientes da atividade humana.
"Com isso, a Terra está ficando mais quente e causando mais desequilíbrios. Então, ocorrem fenômenos muito intensos, com chuvas muito fortes em alguns lugares e secas extremas em outros."
Para São José, altos índices de precipitação chamam mais atenção da mídia, da população e da Defesa Civil, ignorando-se que a seca é o maior risco climático do Brasil.
"Para grandes especialistas de diversas partes do mundo, de todos os eventos naturais, a seca é mais complexa e mais grave que furacão, tornado, terremoto e vulcão em razão de sua natureza lenta. O ambiente leva mais tempo para se recuperar. A memória da seca fica gravada nele e, quando há uma seca subsequente, a chance de resultar em grandes desastres é muito alta. Diferentemente de outros eventos naturais, os impactos da seca não são estruturais, nem pontuais. São impactos que avançam no território, que se expandem e alcançam uma área maior", adverte o pesquisador.
O pesquisador lembra, por fim, que embora haja locais no Brasil com pouca chuva, o semiárido brasileiro é o mais chuvoso se comparado a outras regiões semiáridas.
"O problema não é a falta de chuva. O problema está relacionado à falta de uma política eficiente de captação dessa água", reforça.
"Apesar do aumento de eventos extremos, as crises desencadeadas não derivam apenas da intensidade e frequência desses eventos, mas da forma como o espaço geográfico é planejado e habitado", complementa.

Fonte: Jornal da Unicamp

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