Falta de políticas públicas contribui para potencial desastre causado pela seca no semiárido baiano
Efeitos da seca no reservatório de Sobradinho, no semiárido baiano, em 2020: a urbanização, o avanço da agropecuária e o cultivo de frutos para exportação provocam impactos na região
Tese defendida no Instituto de Geociências (IG) da {UNICAMP} por Rafael Vinicius de São José teve como principal objetivo desenvolver uma metodologia de prevenção ao risco de seca no semiárido do Estado da Bahia, utilizando como estudo de caso a mesorregião do Vale São-Franciscano, ocupada por grupos que apresentam diferentes níveis de vulnerabilidade social. Em áreas cuja população é muito vulnerável, a seca pode gerar profundos impactos sociais.
O estudo, orientado pelo docente do IG Roberto Greco e coorientado pela pesquisadora Priscila Pereira Coltri, do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (Cepagri), sugere que a região apresenta áreas potenciais para a ocorrência de grandes desastres relacionados à seca.
A mesorregião do Vale São-Franciscano está situada na região semiárida da Bahia e vem sendo bastante impactada pelo avanço da agropecuária, do cultivo de frutos para exportação e do desenvolvimento urbano. Para verificar tendências de umidade e de temperatura (mínima e máxima) da área do estudo, o pesquisador analisou os valores mensais de precipitação pluviométrica e de temperatura do ar relativos ao período de 1961 a 2019.
O autor da tese constatou a propensão ao aumento da temperatura do ar e à redução da precipitação pluviométrica, o que pode ter relação com as mudanças ambientais e com a própria dinâmica climática da região.
Ao integrar dados espaciais referentes às possíveis ocorrências de seca, nos diferentes graus de intensidade e com os distintos níveis de vulnerabilidade dos agricultores do semiárido baiano, foi possível gerar um mapa com a distribuição espacial do risco climático da seca. O pesquisador analisou 278 municípios e identificou que, se houver seca fraca, moderada ou severa, a grande maioria desses municípios está sob risco muito alto, com potencial de o fenômeno ganhar proporção de desastre. Se houver seca extrema ou excepcional, o risco eleva-se a crítico.
Para evitar esse tipo de desastre, é necessário elaborar políticas públicas que reduzam a vulnerabilidade social da população e que aumentem a capacidade de resposta.
Greco destaca que a tese apresenta uma metodologia com desdobramentos conceituais e de grandes possibilidades de aplicação.
São José lembra que esse é um fenômeno natural que faz parte da história evolutiva do planeta.
Priscila Pereira Coltri (coorientadora), Rafael Vinicius de São José (autor da tese) e Roberto Greco (orientador): análise de dados de 278 municípios
Ação antrópica
Coltri lembra que a alteração do clima global está relacionada com a ação antrópica e que mudanças significativas têm sido observadas, como é o caso dos níveis de gases de efeito estufa, os mais altos já registrados. Argumenta, ainda, que houve um desequilíbrio a partir da Revolução Industrial, com a emissão de gás carbônico, metano e óxido nitroso, todos provenientes da atividade humana.
Para São José, altos índices de precipitação chamam mais atenção da mídia, da população e da Defesa Civil, ignorando-se que a seca é o maior risco climático do Brasil.
O pesquisador lembra, por fim, que embora haja locais no Brasil com pouca chuva, o semiárido brasileiro é o mais chuvoso se comparado a outras regiões semiáridas.
Fonte: Jornal da Unicamp